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Numas eleições onde a palavra "Europa" não se ouviu, (para os menos atentos, a Europa era o tema das eleições) não admira que os resultados tenham sido estes. Apenas 34% dos portugueses quiseram votar, dos quais 3% - quase 250 mil pessoas - fez questão de manifestar o seu desagrado deixando o boletim de voto em branco, ou anulando-o.

 



Com os discursos ontem dos dirigentes dos nossos partidos políticos ficou claro que continuam a não perceber. Continuam a degladiar-se numa aparente conversa de café, embrulhados numa espécie de eterno Sporting versus Benfica versus Porto, onde não se toca num Real Madrid, num Arsenal ou num Juventus. As eleições e as campanhas que as precederam foram uma vergonha e uma falta de respeito para com o eleitorado. Não podia esperar outra resposta. Os resultados não demonstram uma indiferença perante a política ou mesmo perante a Europa, estamos é fartos de um regime que se vai mostrando cada vez mais decrépito, incapaz de dar resposta às interrogações, preocupações e aspirações de todo um povo.

 

 

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O ofício do Rei

por Teresa Côrte-Real, em 16.05.14

 

Um apoiante do Glorioso culpou a presença do Rei pela vitória da equipa espanhola na final da Liga Europa. Apesar de não ter sido o Rei mas o Príncipe das Astúrias a assistir ao jogo, a história reforça a visão popular da figura real como protectora e defensora do seu povo, com a qual ele se identifica e leva-nos até à essência do sistema monárquico. Os sucessos espanhóis no desporto projectam aquilo que a sua  monarquia é: um projecto de futuro baseado numa estratégia nacional de desenvolvimento e de continuidade que reforça e respeita a identidade própria de toda a Espanha e que a torna reconhecida em todo o mundo.

 

É desta missão que falava o nosso rei D.Manuel I na Carta de Foral de Castro Marim (1504):  Fazemos saber que vendo nós como o ofício do Rei não é outra coisa senão reger bem e governar seus súbditos em justiça e igualdade, a qual não é somente dar a cada um o que seu for mas, ainda, não deixar adquirir nem levar, nem tomar a ninguém senão o que a cada um direitamente pertence […].  

 

 Em época de decisões europeias seria bom pensar nisto.

 

 

 

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Qual crise de regime?

por Luis Lavradio, em 04.05.14

Numa recente entrevista à TVI (da qual apenas passaram os 3 ou 4 minutos menos relevantes), defendi o aparentemente indefensável - a permanência da instituição real espanhola. Insistia a minha simpática interlocutora que após os embaraços paquidérmicos, as notícias de infidelidade conjugal, e os problemas da Família Real com a justiça, o povo espanhol estaria a clamar pelo fim da monarquia. Como evidência da crise apontava as fracas sondagens em sua defesa, os distúrbios populares e as demonstrações nacionalistas e anti-monárquicas na Catalunha, reiterando a posição de muitos dos nossos "democrátas", desejosos de uma Espanha laica e republicana. São sintomas parecidos com aqueles sofridos actualmente pela grande maioria dos países ocidentais. Mas parecia teimosia minha.

Em 1975 Espanha era um país pobre, com a memória ainda viva de uma horrenda guerra civil e de um prolongado período de autoritarismo. Em 35 anos transformou-se numa democracia plena, moderna e numa referência mundial a nível económico, cultural, e mesmo desportivo. Se é indiscutível que a actuação do Rei foi indispensável para a sua metamorfose política de uma forma natural e pacífica, também não teria sido possível o sucesso espanhol em todos os campos sem uma estratégia verdadeiramente nacional e aglutinadora, assegurada pela autoridade, independência e estabilidade oferecidas pela Coroa.

 

 

As sondagens de 2013 mostravam o Rei com um apoio historicamente baixo, é verdade. (Ainda assim, no seu annus horribilis, mantinha uma popularidade superior ao dos seus congeneres republicanos). Mas mostravam também que 75% dos espanhóis apoiam o actual regime, com quase 80% a considerarem o Príncipe Felipe apto para assegurar a sucessão. O país afirma-se monárquico e não apenas "juancarlista". A crescente visibilidade republicana, à qual os nossos meios de comunicação social têm dado tanto importância, deve-se essencialmente à afirmação nacionalista dos povos catalão e basco. Estes entendem, e com razão, que uma República Espanhola facilitaria em muito a conquista da sua respectiva independência. Ou seja, não é um movimento contra o regime monárquico em si, mas contra a capacidade unificadora da Coroa!

 

O povo espanhol é livre, a qualquer momento, de pedir e votar a alteração do seu regime, liberdade democrática comum a todas as monarquias europeias e que nos é vedada pela nossa constituição. A Infanta Cristina, apesar de ser filha do Chefe de Estado, está a enfrentar a justiça nas mesmas condições de qualquer outro cidadão. A Coroa Espanhola recebe menos de €8 milhões por ano do erário público, metade da dotação dos €16 milhões da Presidência da República em Portugal. O regime, tal como nas outras monarquias ocidentais, longe de ser o mítico monstro antidemocrático, corrupto e desmedido, tem fomentado a democracia, a igualdade e a parcimónia.

 

As notícias recentes sobre a saúde e a actuação de Juan Carlos I vão dando razão à larga maioria dos espanhóis, e não podem ter sido mais oportunas para resfriar o ânimo dos republicanos mais enraivecidos da nossa praça!

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